• Angélica Ribeiro

A presença feminina na produção cultural

A jornalista e produtora cultural Giana Guterres concede entrevista ao blog da artista plástica Angélica Ribeiro a respeito do trabalho no setor de produção cultural com enfoque na presença feminina no meio artístico-cultural.


Retrato de Giana Guterres
Retrato de Giana Guterres

(Angélica Ribeiro) Olá Giana, tudo bem com você? Em primeiro lugar, você poderia se apresentar aos leitores do blog e citar alguns dos projetos que você já realizou profissionalmente?


(Giana Guterres) Tudo bem e muito obrigada pelo convite. Claro!  Sou jornalista e produtora cultural, graduada em Jornalismo e Produção Cênica. Atualmente sou mestranda em Comunicação na UFPR e pesquiso como o Jornalismo Cultural informa sobre o Teatro. Escrevo poesias (@floresciversos) e outros textos, e a partir disso fui partindo para outras linguagens como dramaturgia e comecei a bordar porque queria misturar meus poemas com bordado.

Nessa trajetória profissional já fiz várias assessorias de imprensa, especialmente para Teatro, sendo a mais recente "O Massacre dos Anjos" da Cia Rabiscos. Como produtora já participei de peças como Cachorro, uma dramaturgia alemã da Dea Loher, em um trabalho adaptado para pessoas com deficiência visual. E agora, estou produtora no Topia Art Experience, um evento de artes digitais enquanto concilio com meus projetos pessoais como a publicação do meu primeiro livro Eu, Passarinho.

(Angélica Ribeiro)  O que é a produção cultural e como é a vida profissional de quem trabalha nessa área?

(Giana Guterres) Produção é tudo que está por trás dos bastidores de um produto cultural. Acho que a melhor explicação é todos aqueles nomezinhos que a gente vê ao final de um filme ou na ficha técnica de um espetáculo ou livro. Existem infinitas funções dentro das mais diversas linguagens artísticas.

É um trabalho muito desgastante porque é preciso estar atenta a todos os detalhes prévios e para isso sempre vou criando infinitas planilhas com dados. Porém, é um dos mais gratificantes ao ter contato com a resposta do público.

(Angélica Ribeiro)  Como você percebe a presença feminina no setor artístico-cultural da atualidade?


(Giana Guterres) Existem pesquisas que já mapearam o setor cultural, que indica que embora haja um crescimento da presença feminina, ela ainda é menor. Se a gente for parar pra ver a História da Arte, nosso envolvimento cultural é bem recente se comparado com os homens. Um ensaio que acho bem essencial e me ajudou a pensar sobre isso é "Por que não houveram grandes mulheres na arte?". O texto da Linda Nochlin nos dá várias pistas para pensar sobre a atualidade e valorizar as produções das mulheres. A pesquisadora Eli Bartra também tem várias reflexões pertinentes sobre esse assunto e fala principalmente da relação das mulheres com a arte popular. E só para citar um exemplo, de acordo com dados recentes 70% das publicações de livros no país ainda são de autores homens, e, se a gente parar pra pensar em características como mulheres negras, essa participação ainda é bem menor!

(Angélica Ribeiro) O que você diria para as meninas e para as mulheres que desejam seguir o caminho artístico-cultural de maneira profissional?


(Giana Guterres) Estudem, estudem, estudem sobre arte e processos criativos!  O caminho é penoso, mas com certeza, valerá a pena! Ampliem o seu repertório em diversas linguagens artísticas e além dos horizontes geográficos. Tem tanta coisa linda sendo criada por mulheres. Ousem dar voz a sua alma, sejam fiéis consigo mesmas em primeiro lugar e a arte fluirá de você. Tem um poema da Rupi Kaur que sempre me inspira muito e acho que cabe aqui:


sua arte não é a quantidade de pessoas que gostam do seu trabalho sua arte é o que seu coração acha do seu trabalho o que sua alma acha do seu trabalho é a honestidade que você tem consigo e você nunca deve trocar honestidade por identificação - a todos vocês poetas jovens (Outros Jeitos De Usar A Boca - Rupi Kaur)


(Angélica Ribeiro)  Por fim, você poderia explicar para as moças (e também para os rapazes) leitoras do blog quais os primeiros passos necessários para iniciar uma carreira no setor de produção cultural?


(Giana Guterres) Primeiro, é pesquisar para entender se é isso que você quer. Instituições como o Itaú Cultural (que publica gratuitamente a revista Observatório Cultural) e SESC tem contribuições e publicações valiosas para a reflexão da gestão e produção cultural. As duas instituições oferecem cursos, palestras, bate papos com frequência.

Depois é acompanhar produtores culturais para ir formando sua rede, pois ela será valiosa. E por fim, existem cursos livres de Direção de Produção Cultural e algumas formações universitárias como Produção Cênica, onde fiz minha segunda graduação.