• Angélica Ribeiro

As gravuras do artista Renato Torres

O artista e professor universitário Renato Torres, em entrevista ao blog da artista visual Angélica Ribeiro, fala sobre gravura tanto como técnica artística quanto de suas experiências pessoais e profissionais com a mesma.



(Angélica Ribeiro) Olá Renato, você poderia se apresentar aos leitores do blog Angélica Ribeiro falando sobre sua carreira e suas relações com a gravura?

(Renato Torres) Olá Angélica, sou professor do Curso de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Comecei a produzir em gravura em 2000, após me formar no curso superior de Gravura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

Sempre gostei de participar de ateliês coletivos. Participei por alguns anos da Oficina Permanente de Gravura da UFPR e posteriormente criei o Grupo Papel com alguns artistas-professores na Universidade Tuiuti. Hoje novamente com artistas-professores, agora com Patricia Camera e Cris Mendes, criamos o Coletivo Grimpa. Minha produção tem a gravura como base, mas dependendo do projeto que estou envolvido, utilizo outros materiais.

(Angélica Ribeiro) Gravura é, por vezes, uma palavra usada para identificar ilustrações em livros ou revistas. Entretanto, o que realmente é a gravura enquanto técnica artística?

(Renato Torres) A gravura surgiu com o desejo de multiplicar a imagem. Inicialmente para fins comerciais de reprodução de textos e imagens e só mais tarde passou a ser utilizada como forma de expressão artística. Em ambientes profissionais de arte costuma-se diferenciar a gravura comercial da gravura artística.

A gravura artística foi tradicionalmente desenvolvida nas técnicas de xilogravura (gravura na madeira), calcogravura (gravura em chapa de metal), litogravura (gravura em pedra) e a serigrafia (gravura em tecido de nylon).

Existe também uma concepção de gravura contemporânea, relacionada à ideia de múltiplo, de deixar marcas e/ou produzir registros. Nesta concepção os dogmas da gravura de arte são constantemente questionados, resultando em produções inovadoras que dialogam com a sociedade atual.

A gravura enquanto técnica artística, é destinada à expressão e ao desenvolvimento da linguagem. A gravura comercial se diferencia da artística por estar ligada a uma função na sociedade, ao utilitarismo e às necessidades gráficas básicas do comércio em geral.

(Angélica Ribeiro) Qual, na sua opinião, é a maior contribuição da produção de gravuras na história da arte?

(Renato Torres) É um tanto difícil dar uma resposta precisa. Todavia, a gravura de arte teve grande expressão na arte moderna, com destaque no expressionismo alemão. Foi um momento em que os artistas desejavam criar uma arte mais democrática e de fácil acesso.

(Angélica Ribeiro) A partir de suas vivências como artista e professor, como você descreve a experiência de trabalhar com a produção de gravuras?

(Renato Torres) Certa vez, em um encontro da ANPAP, ouvi a frase: A gravura é o que me cura. Acredito que tal expressão sintetize meu sentimento pela gravura, principalmente por ser algo que me inquieta e me chama... O embate com a matéria, o trabalhoso processo de criação, os desafios da construção da imagem e as descobertas casuais que as técnicas podem proporcionar, compõem algumas qualidades que aprecio nesta forma de fazer arte. As experimentações em gravura não se esgotam... Sempre temos algo a aprender e a pesquisar.

Gosto de desafios, como lidar com o espaço físico ou como executar gravuras em grandes dimensões. Também aprecio me deparar com erros, dos quais no andamento do trabalho, procuro aproveitar e explorar em novas configurações. Assim, mais que executar um projeto de imagem, me interessa o que surge durante o processo, proporcionando imagens inesperadas.

(Angélica Ribeiro) E as suas gravuras? Conte aos leitores do blog um pouco sobre sua obra, suas inspirações e seu processo artístico.

(Renato Torres) Cada projeto demanda um procedimento técnico e conceitual.

Na série "Gravura no espaço" eu partia de uma discussão de paisagem contemporânea e da ideia de gravura no campo expandido. Inicialmente as gravuras foram pensadas em diálogo com o espaço físico e construídas com um comportamento de objeto (que considerava a passagem do visitante). As impressões sobre tecido recebiam tintura natural de urucum, açafrão, erva mate, entre outros elementos, proporcionando cheiros e diferentes sobreposições a medida que o visitante caminhava pelo espaço.

A série “Entre o gravado e o não gravado” mantinha por base outro conceito operatório, estabelecido pela relação entre a imagem que o artista gravava e as marcas que o material poderia oferecer. Trabalhei sobre madeiras usadas, que traziam furos de parafusos, pregos e de sinais de desgastes. Durante o processo de impressão eram sobrepostos barbantes, talcos e objetos que inibiam a tinta, isolando a área e simulando uma gravação que não existiu. A combinação de cores e a composição dos elementos geravam imagens únicas.

Assim a cada série, articulo questões ligadas ao fazer, combinadas com conceitos que impulsionem modos de produzir. Nesse sentido, a técnica a ser utilizada será determinada pela necessidade do projeto.