• Angélica Ribeiro

As relações entre a arte e a arquitetura

O artista contemporâneo e estudante de arquitetura Tales Cardeal da Costa Cunha concede entrevista ao blog da artista Angélica Ribeiro falando sobre seu trabalho e sobre as relações entre a arte e a arquitetura.


Retrato de Tales Cardeal da Costa Cunha
Retrato de Tales Cardeal da Costa Cunha

(Angélica Ribeiro) Olá Tales, tudo bem com você? Você poderia se apresentar aos leitores do blog falando um pouco sobre você e sua relação com a arte e a arquitetura?

(Tales Cardeal da Costa Cunha) Olá, Angélica! Tudo ótimo, obrigado, e obrigado pelo convite para essa entrevista. Gostaria de começar dizendo que seu trabalho de divulgação e valorização da arte é fantástico e queria te dar meus parabéns por isso.

Claro, meu nome é Tales Cardeal da Costa Cunha, tenho 28 anos. Atualmente, sou estudante do último ano de Arquitetura da UFPR e desde criança minha relação com a arte foi muito forte, seja nas matérias acadêmicas ou em atividades que desenvolvia por puro interesse. Já transitei pelo desenho, pela fotografia, pela poesia, porém sempre de forma amadora.

Em 2015, ao adentrar o Curso de Arquitetura tive maior contato com as disciplinas de História da Arte e Teoria da Arte e em 2017 iniciei um trabalho de crítica de obras e exposições de galerias e eventos de arte em Curitiba. A primeira exposição com a qual tive contato nesse trabalho foi “Objeto Vital” do coletivo cubano Los Carpinteiros; justamente de artistas que transitaram pela arquitetura e pelo design e transpuseram esses objetos para o mundo da arte contemporânea.

Em 2018 eu tive contato com o artista curitibano Flávio Carvalho, para uma entrevista acerca da exposição digital: The Wrong Biennale, que ocorre no mundo todo, e durante essa entrevista ele me recomendou que falasse com o Guilherme Zawa, da Galeria Airez, sobre uma possível residência artística. Produzi meu primeiro portfolio e fui aceito na Galeria. A partir de então foi a primeira vez que tive contato com a produção formal, orientada, de um trabalho artístico.

Ao final do mesmo ano eu expus minhas obras dentro do circuito da Bienal de Arte de Curitiba na própria Galeria Airez com uma exposição simultânea individual intitulada “Quanto pesa uma linha” e que foi resultado da investigação que realizei durante esse ano no qual trabalhei o projeto arquitetônico, o fazer da Arquitetura, através da ótica da arte contemporânea.

A partir de então tive a oportunidade de expor também no MuMA, durante o Circuito de Arte Contemporânea de Curitiba, e em outros eventos sempre questionando o projeto arquitetônico, o objeto da arquitetura e o fazer arquitetônico de uma ótica de deslocamento e desconstrução mais do processo do que do produto em si da arquitetura.

E interessante que o processo inverso também foi se desenvolvendo na medida em que o trabalho acadêmico com o projeto arquitetônico foi cada vez mais incorporando atitudes do fazer artístico, do processo, dos questionamentos que não se limitam ao objeto da arquitetura.

(Angélica Ribeiro) Historicamente, por diversas vezes, a arte e a arquitetura estiveram bastante relacionadas. Como, na sua opinião, essa longa história contribui para a percepção das pessoas em relação a arquitetura na atualidade?

(Tales Cardeal da Costa Cunha) Com certeza. A arquitetura já foi considerada uma das sete belas artes, durante a Antiguidade, depois, durante a Idade Média, foi considerada uma arte liberal. Já durante o nascimento da Arquitetura Moderna você percebe a enorme influência da arte construtivista soviética, do expressionismo alemão e todas as demais vanguardas artísticas; e até hoje grandes estúdios de arquitetura irão buscar na arte e no processo artístico, o que é ainda mais interessante, na minha visão, um aporte para o fazer arquitetônico contemporâneo. Então, sim essa relação existe, é muito frutífera e sem sombra de dúvida muito importante.

Agora, a percepção da arquitetura enquanto arte na atualidade já traz outras discussões, de maneira geral, bastante acaloradas. Até porque o próprio conceito de arte hoje em dia é extremamente questionado, recriado.

Então, por exemplo, no próprio seio da arquitetura você tem profissionais de renome que se negam a reconhecer a arquitetura como arte. Apresentam, os defensores dessa opinião, argumentos no sentido de que a Arte não se presta a um fim que não ela mesma, o que é impossível na Arquitetura, uma vez que esta é desde seu princípio construída com o intuito de ser habitada. Também defendem, por exemplo, que a Arquitetura não acolhe uma subjetividade tal como as Artes Plásticas, uma vez que na Arquitetura o arquiteto estaria sujeito a um sem número de fatores limitantes como o regulamento de obras, as possibilidades da tecnologia da construção e as necessidades e desejos de um cliente.

Por outro lado, há os defensores que sim a Arquitetura é sim uma Arte e que essas limitações não impedem o arquiteto de produzir uma obra de arte, pelo contrário, são limitações que atendem a todas as atividades do ser humano (só precisamos lembrar, por exemplo, que o Iluminismo não seria possível sem a inovação tecnológica que fora a época as tintas que permitiram aos pintores saírem dos estúdios e pintarem ao ar livre). Também frente ao primeiro argumento há discussões por demais interessantes em diversos ramos, por exemplo na escultura, agora que temos obras esculturais que poderiam muito bem serem habitadas e obras arquitetônicas que perderam sua função de habitação passando a serem consideradas obras de arte pela matéria do patrimônio.

Então essa é uma discussão muito, muito rica e muito benéfica tanto para artistas quanto para arquitetos.


(Angélica Ribeiro) O seu trabalho artístico traz muitas influências da arquitetura. Como você percebe tais influências e como elas impactam suas obras de arte?

(Tales Cardeal da Costa Cunha) Sim. Como eu levantei no texto mais em cima, meu trabalho vai muito na direção de questionar a arquitetura através do fazer artístico então essa influência é sempre presente.

Por exemplo, no começo de 2019 eu tive a oportunidade de participar de uma exposição beneficente organizado pela Ana Rivelles junto a Asteróide Produções em prol de famílias de refugiados que moram em Curitiba.

No mesmo período, eu realizava um trabalho para um concurso de arquitetura temporária para um campo de refugiados. Nas minhas pesquisas eu tive contato com uma realidade muito diferente da que imaginava. Em primeiro lugar, os campos de refugiados, ao menos à época, não possuíam de fato o aspecto de serem temporários: estudos divulgados pela ONU à época traziam uma média entre 7 a 10 anos como o período que um refugiado passava em um desses campos. Além disso, a escala dos campos de refugiados ao redor do mundo também me surpreendeu: Dadaab, no Quênia, até hoje o maior campo de refugiados do mundo, apresentava uma população de mais de 350 mil refugiados. Campos desse tamanho apresentavam infraestrutura viária, rede de luz, água e esgoto, ainda que de forma informal, ou mesmo ilegal, atestando mais uma vez que não se tratava de assentamentos temporários. Também, a questão da vivência nesses campos foi algo que me sensibilizou bastante então um dos livros que busquei para embasar essa pesquisa, que foi o “Cidade dos Espinhos”, de Ben Rawlence, retrata a situação desses campos com populações inteiras vivendo sem cidadania reconhecida e em meio a condições muito precárias de segurança, de estabilidade e ainda assim vivendo, sonhando, conquistando uma vida melhor, na medida do possível.

Quando a Ana, então, me convida a participar dessa exposição eu busquei retratar essa condição através da construção de uma cabana com lona plástica, o mesmo material que é utilizado em campos ao redor do mundo, e apresenta-la não como temporária, mas como de fato sendo a realidade do que significa um lar para mais de 25 milhões de pessoas ao redor do mundo.

E assim ocorre também com os demais trabalhos. Por exemplo, os conceitos de glitch art e de databending, conceitos que tive contato através da obra do Flavio já serviram de base para outras experimentações na série “ArchiBendDataTetura”; também os de deslocamento e humor do coletivo Los Carpinteiros embasaram outros trabalhos, que acabaram expostos.

Do lado da arquitetura eu gostaria de ressaltar o trabalho do Superstudio e do Archigram como referências para o fazer artístico.



(Angélica Ribeiro) Por fim, como a arte contemporânea em toda sua gama de possibilidades criativas pode se beneficiar das relações entre arte e arquitetura?

(Tales Cardeal da Costa Cunha) Nossa Angélica, o campo de possibilidades e de interações entre essas duas áreas é imensurável.

Um aspecto que muito me interessa, porém, e que muito me anima a experimentações é da diferença entre o fazer artístico calcado no “processo” e o fazer arquitetônico calcado no “projeto”.

Se formos à origem da palavra, “processo” vem de pro-cedere: colocar adiante, movimentar-se adiante. Já a palavra “projeto” vem de pro-jetare: lançar adiante, visar um objetivo futuro. É uma diferença muito sutil, mas veja que interessante! No processo artístico, no movimentar-se da arte, um passo segue o outro, o trabalho é feito sobre o que vem imediatamente atrás, não se sabe, de forma geral, onde se irá chegar ao se iniciar de uma obra de arte. Por outro lado, o projeto implica em lançar um objetivo futuro, um programa arquitetônico, e então perseguir esse objetivo por sucessivas aproximações e correções.

Quando se mistura essas duas formas de atuação tem-se um resultado muito, muito interessante! Por exemplo, ao se trabalhar com um projeto sem o conceito de “casa” ou de “tipo arquitetônico” no qual é impossível saber de antemão no que irá resultar o projeto, se ele será habitável ou mesmo factível de ser construído, mas que possibilitar o explorar de campos e soluções muito inovadoras; por outro lado, ao tentar trabalhar com a arte a partir do conceito de projeto se produz uma angústia enorme no artista que não consegue reduzir a liberdade criativa a uma série mais ou menos lógica de passos para atingir um objetivo pré-determinado, porém que, ao mesmo, tempo força considerações muito frutíferas acerca do processo criativo do artista.

Por fim, um segundo aspecto que muito me anima é o da arte como reflexão da arquitetura e vice-versa. A arte, acredito, tem essa condição ímpar de não gerar progresso na arquitetura, mas algo de fato novo, nem sempre no objeto mas na atitude e no pensamento do que significa habitar, conviver, construir, no que demonstramos, a partir do modo como fazemos arquitetura, de nossa alma como indivíduo e como comunidade.

Bem, é um assunto que realmente me apaixona, espero ter podido contribuir e muito obrigado novamente pela oportunidade e pela entrevista Angélica!