• Angélica Ribeiro

O trabalho de montagem de exposições

Rogério Bealpino, montador de exposições e especialista em manuseio de obras de arte na Guará Montagem, concede entrevista escrita para o blog da artista visual Angélica Ribeiro, tratando da montagem de exposições e das contribuições desse trabalho para a cultura.



Retrato de Rogério Bealpino (imagem do acervo pessoal de Rogério)
Retrato de Rogério Bealpino (imagem do acervo pessoal de Rogério)

(Angélica Ribeiro) Olá Rogério, você poderia se apresentar aos leitores do blog Angélica Ribeiro falando sobre sua carreira e suas relações com a arte?

(Rogério Bealpino) Sou montador de exposições e especialista em manuseio de obras de arte há 14 anos em Curitiba. É um campo com poucos profissionais na cidade. Cerca de 15 pessoas. Atuo na área desde a época da faculdade, quando estudava Licenciatura em Desenho na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Nesse período estagiei no setor de acervo do Museu de Arte Contemporânea do Paraná e desde então me apaixonei por tudo relacionado à museologia, em especial a conservação de acervos e montagens de exposições. Aprendi o ofício com o William de Almeida Batista, experiente profissional do MAC/PR, e desde então atuo nos mais importantes espaços culturais e museus da cidade. Já trabalhei diretamente em quase 100 exposições, além de prestar serviços em projetos de conservação e restauro de acervos. Criei há dois anos uma empresa especializada na área, a Guará Montagem, para atuar com toda a formalidade exigida em montagens de exposições, manuseio de obras de arte embalagens e até transporte especializado. Tenho uma excelente equipe super qualificada para atender qualquer situação com profissionalismo e muita disposição. Pelo nosso dedicado trabalho temos sido muito procurado por artistas, curadores, produtores, diretores de museus e de espaços culturais, e por diversas pessoas, inclusive aquelas que não são da área como apreciadores de arte que desejam simplesmente instalar quadros em sua casa ou comércio.

(Angélica Ribeiro) A montagem está muito além de simplesmente pendurar quadros em paredes de museus. Quais atividades envolvem a montagem de exposições?

(Rogério Bealpino) Muita gente acha que um montador de exposições precisa ter apenas habilidade com ferramentas para pregar ou parafusar um quadro na parede. Bom, isso qualquer pessoa faz. Agora, o montador de verdade precisa ter conhecimento mínimo nos assuntos relacionados à conservação de obras (intensidade de iluminação, temperatura e clima, umidade relativa do ar, acondicionamento, higienização), acondicionamento (embalagens para guarda e/ou transporte) dentre outras situações que assegurem a estabilidade física e estética da obra de arte. Além disso, um montador de exposições por vezes atua como um auxiliar de curadoria, dando dicas, sugestões e opiniões valiosas ao organizador da mostra. Também é importantíssimo ter interesse de apreciação e reflexão artística e histórica, por mínimas que sejam, para que o trabalho seja ainda mais dedicado. No meu caso, sou formado na área e isso contribui imensamente para meu olhar e para entender as reais necessidades de cada projeto expográfico.

(Angélica Ribeiro) Qual, na sua opinião, é a maior contribuição que um montador de exposições gera para a arte e para a cultura de modo geral?

(Rogério Bealpino) Já sabemos da importância de uma exposição de arte ou de história para a formação humana, nos mais diversos campos do conhecimento. O montador de exposições (ou arthandler, como se fala nos países afora) é uma importante engrenagem de uma grande máquina formada por profissionais como restauradores, arquitetos, museólogos, profissionais da cultura (artistas, curadores, produtores), designers, educadores e tantos outros que fazem uma exposição de fato "funcionar". Sem o seu trabalho, nenhuma exposição, em lugar nenhum do mundo, acontece. E ele precisa ser bom, não há lugar nessa área para aventureiros. Logo se percebe quem de fato entende o que faz.

(Angélica Ribeiro) Quais as três principais dicas práticas que você daria para uma pessoa que se propõe a montar uma exposição de arte?

(Rogério Bealpino) Uma exposição requer, antes de tudo, objetivos claros e detalhado planejamento. Fazer uma exposição só pela necessidade de se mostrar algo, sem propósitos, de nada vale. De exposições ruins o mundo está cheio. E não falo de exposições caras... às vezes até elas são péssimas. Já vi exposições muito boas montadas em escolas de educação infantil, com trabalhos dos alunos, superarem em qualidade expográfica de algumas exposições de grandes museus. Por isso, reunir o máximo de profissionais como os que eu mencionei acima, é fundamental. Saiba o que quer expor e porquê quer fazê-lo. Selecione somente o essencial e nunca faça tudo sozinho. Ter um bom profissional de montagens de exposições por perto, por exemplo, é uma excelente dica para não ter surpresas desagradáveis durante a execução da montagem.

(Angélica Ribeiro) Além de montador, você também é arte-educador. Como, na sua percepção, a montagem de exposições e a arte-educação colaboram uma com a outra?

(Rogério Bealpino) É verdade. Na sua primeira pergunta não mencionei minha atuação como arte-educador. E ela não é pequena. Em paralelo às atividades de montagem sempre mantive esta atividade de educação museal ativa. Por seis anos, por exemplo, fui orientador pedagógico do projeto educativo de um grande espaço cultural em Curitiba. Com minha equipe atendemos quase 40.000 visitantes (crianças, adultos e idosos) em visitas guiadas às exposições do espaço, oficinas de arte e atividades educacionais. Há dois anos atuo exclusivamente com as montagens, mas a arte-educação sempre contribuiu na minha forma de entender a importância dos conteúdos de cada exposição para o público que a visita. Um olhar clínico e crítico numa mostra individual ou de um acervo, por exemplo, me ajuda a compreender que o que fazemos com as montagens não é realizado para a manutenção de vaidades (as nossas, principalmente), e sim para atender a necessidade de formar um público mais próximo da arte, conforme são os objetivos da educação. Como arte-educador gosto sempre de pensar a expografia de uma exposição de maneira mais acessível, mais próxima do seu público. Nunca fui fã de exposições com propostas conceituais ao extremo, que mais afastam o público do que o cativam. É preciso uma ação educativa de excelência para dar conta disso, e ainda assim correm riscos de não terem êxito. Essa análise pode até ficar para uma outra conversa.